terça-feira, 12 de outubro de 2010

O crescimento mundial da direita religiosa

Como meu primeiro post em meu novo blog, decidi abordar um tema que já me chama a atenção há algum tempo, e que cresceu de importância no Brasil a partir do final do 1º turno das eleições presidenciais: a utilização da religião como arma política da direita.

O primeiro país onde este fenômeno me chamou a atenção foi Israel. Até pelo caráter semiconfessional do próprio Estado israelense, os partidos religiosos judaicos ortodoxos sempre existiram lá e sempre tiveram peso político - mas nunca tanto quanto agora. O Likud, partido histórico da direita israelense mais secular, é literalmente prisioneiro de seus aliados da direita religiosa do Shas e do Israel Beteinu, este ocupando o importantíssimo cargo de chanceler com a personagem ultradireitista de Avigdor Lieberman.

Mas mesmo nas democracias ocidentais de tradição mais laica o direitismo religioso mostra suas garras - ainda que disfarçando-se por vezes de seu próprio oposto. A legislação francesa contra o uso público do véu islâmico é o mais eloquente exemplo: com uma retórica que mistura "laicidade" e "segurança", a medida na verdade criminaliza uma prática religiosa e impõe às mulheres muçulmanas o seguinte dilema: abrir mão de uma simbologia de sua fé ou trancar-se em casa.

O velho e sempre atual alerta de Bertold Bretch ("primeiro pegaram os comunistas...") cabe como uma luva para esta situação. Quem garante que, após proibir o véu islâmico, a fúria da direita religiosa francesa não possa se voltar contra o turbante hindu, o dreadlock rastafari ou o quipá judaico, como já se volta agora também contra os ciganos? Afinal, o pano de fundo desta lei é a crescente xenofobia na sociedade francesa - e a experiência do nazismo já nos ensinou que a intolerância racial e religiosa é o estopim dos genocídios.

Nos EUA a direita religiosa cristã foi um dos principais sustentáculos do governo Bush. Sarah Palin, a vice republicana da última eleição, é uma feroz representante deste segmento, e o Tea Party, barulhenta mobilização da direita republicana, ganha cada vez mais espaço e pode emplacar vários de seus membros como candidatos pelo Partido Republicano nas próximas eleições legislativas americanas - que, ao que tudo indica, serão ganhas pelos conservadores.

E hoje, infelizmente, temos um grande ponto em comum com os EUA: o peso que a questão do aborto assume no pensamento cristão conservador. Nos EUA, o aborto é legal por decisão da Suprema Corte; entretanto, a direita cristã de lá o combate com métodos, digamos assim, sem nenhuma "piedade cristã": é comum que mulheres que fizeram aborto tenham sua privacidade violada e sua condição de "abortista" exposta a público e são frequentes os relatos de ameaças a médicos e clínicas que fazem aborto - já houve casos de tentativas de assassinato e explosões de bombas em clínicas.

No Brasil, "nunca dantes na história deste país" a visão religiosa de uma questão de costumes assumiu tanto peso numa eleição republicana - nem a campanha da Igreja católica contra a Lei do Divórcio nos anos 70 foi tão virulenta. Estou indignado, enojado e muito temeroso com os desdobramentos desta história: jamais imaginei que, mais de 200 anos após a Proclamação da República e separação legal entre Igreja e Estado, corrêssemos o risco de voltarmos a ter "religião oficial de Estado".

Já imaginaram? Um Estado "cristão de direita" não iria só combater o aborto: iria também tentar criminalizar a camisinha e a pílula e perseguir as religiões de origem africana. Ainda consigo pensar no pior (com uma certa dose de humor negro, é verdade): depois disso tudo, não duvido se um "Estado católico de direita" não tentaria ainda... descriminalizar a pedofilia (credo!).

3 comentários:

  1. Oi, Arthur! Parabéns pelo blog. Aposto que daqui sairão excelentes crônicas. Bjs.

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  2. Acho muito oportuno seu texto, é um assunto que tem me chamado muito a atenção nos últimos tempos.

    O que me incomoda é num estado laico como o nosso a maneira como a(s) Igreja(s) tentam impor suas doutrinas e dogmas para a sociedade como um todo, inclusive para quem não faz parte dela, como eu. Até escrevi algo sobre isso no meu blog esta semana.

    Quanto ao Tea Party, penso que na prática ele vai acabar é prejudicando os Republicanos a médio prazo(o que seria muito bom, na minha opinião), acabando por dividi-los. Sabemos que sempre existiu ua percentual da população americana que sempre pensou desta forma, apenas não tinham esse grau de organização.

    Parabéns pelo texto e pelo blog.

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